O terror acontece com a guarda presidencial
Luanda - Armados até aos dentes, os referidos militares da Unidade da Guarda Presidencial protegem o terreno de antigo cemitério.O terror acontece, de acordo com os populares, quando os militares estão embriagados: Nestes momentos não poupam ninguém.
Segundo contou o soba do Mulenvos, Diogo José Manuel, os camponeses cultivam na zona desde os longínquos anos de 1960. Após a independência o bairro passou a chamar-se Sanzala da Paz, mas ainda haviam agricultores que viviam nas suas parcelas de cultivo. No ano passado, foram surpreendidas pelo Gabinete de Reconstrução Nacional que cercou os terrenos sem qualquer explicação. A zona passou a ser protegida por efectivos da Unidade da Guarda Presidencial.
A área cercada ocupa uma extensão de aproximadamente quatro quilómetros quadrados, abrangendo lavras e o cemitério. Segundo o relato dos aflitos, na altura da vedação foram obrigados abandonar os respectivos terrenos sem qualquer indemnização, apenas receberam a informação de que o terreno é pertença de um general afecto a Presidência da República. Passado um ano, o suposto proprietário nunca apareceu para se pronunciar sobre as compensações. "Até agora ficamos sem saber o que será de nós no futuro", disse um dos moradores.
De acordo com os populares, desde que as tropas da (UGP) passaram a proteger a área, a vida dos moradores tornou-se complicada, pois, os efectivos quando estão sob efeito do álcool têm protagonizado acções bárbaras, como torturas e disparos anárquicos. As "prezas", na sua maioria, são todos indivíduos que tentam passar nas redondezas do cerco.
José Manuel é uma das vítimas. Tal como narraram testemunhas oculares, agentes dirigiram-se a casa dos familiares do jovem e sem mais nem menos começaram a espanca-lo brutalmente. Diogo João Manuel, o progenitor, ainda tentou persuadir os militares a terminarem com a cena de pancadaria, mas estes ameaçaram toda a família. "Eles começaram a espancar o meu filho, , ao mesmo tempo em que os agentes faziam ameaças de morte para a minha família a quem apontaram uma arma", disse.
O soba Diogo Manuel, também não foi poupado na altura em que os agentes desferiam pontapés ao seu filho Marcelino. "Eles nem sequer respeitam a mim como autoridade tradicional e ainda disseram que podem bater em todos, até em generais. Por isso, quando eles estiverem a fazer confusão ninguém pode intervir", explicou.
A família acrescentou que enquanto decorria a briga, o agente da polícia que se encontrava no quintal transformou-se num brando "telespectador"e teve a coragem de aconselhar a irmã mais velha da vítima a não intervir. "O oficial dia da esquadra disse que nós não podíamos acudir porque o meu irmão não tinha razão", contou.
Uma semana depois os agentes voltaram a atacar em grande e mais uma vez no seio da família do soba Diogo Manuel. O jovem Dino caminhava a escassos metros do cerco, quando foi "catalogado" como suspeito por se tratar de alguém que os agentes conhecem. Acusaram-no de desobediência aos militares e como resultado foi espancado. O Carnaval de atrocidades terminou quando os militares espetaram-lhe uma faca no peito.
A presença da tropa nos Munlevos obriga a um recolher obrigatório, tudo porque as pessoas já não podem ficar a beira de casa no período da noite. Indignados com o comportamento dos efectivos, os moradores solicitaram ao Major Paulo, o responsável pela tropa lá destacada, para que mudasse o "staff", com vista a evitar problemas com a população. Segundo os queixosos, ele mostrou-se comovido com a situação, tendo garantido aos habitantes que iria rever a situação. Tudo não passou de uma promessa, sendo que o cenário continua o mesmo.
Impotentes ante as atrocidades de agentes afectos a guarda presidencial, os populares apelam as autoridades competentes para que velem pela segurança da população. "Esperamos que a Presidência da República venha a interferir para que as pessoas circulem sem restrições. Estamos aflitos", alertou o soba.
No local constatamos que as restrições de acesso não são apenas impostas aos transeuntes, estendem-se também para às pessoas que pretendem realizar actos fúnebres no cemitério que também foi cercado. Foi o que verificamos quando um cortejo fúnebre se aproximou do local. Os agentes fizeram sinal para que não entrassem. Na parte esquerda da porta estava um homem civil com arma em riste. Só depois de identificar os presentes os militares autorizaram a realização do funeral.
*Correia Júnior
Fonte: Angolense