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em 28 de Maio de 2007 - 09:43 |
Luanda - A nenhum deles ocorreu, um dia, estar agora na condição de paraplégico, tetraplégico, cego, bi-amputado ou amputado.São homens que ontem aspiraram a cientistas políticos, professores, engenheiros ou a profissionais de outras áreas do saber.
Uma mina traiçoeira, uma emboscada no caminho ou estilhaços de um projéctil tirou-lhes os membros ou a visão; fracturou-lhes as pernas ou a coluna vertebral, enfim, apagou-lhes os projectos que desenhavam para o futuro. Até hoje, convalescem no Hospital Militar Principal. A maior parte deles há mais de dez anos. Outros há mais tempo. Graça Celestino, por exemplo, entrou na unidade hospitalar com 20 anos. Hoje conta 42. Portanto, anda internado há 22 anos. Eles são muitos. Mas já estiveram em maior número. Chegaram a quase duzentos. Foram morrendo de outros males; de doenças, de infecções e talvez também de desesperança... Joaquim Alberto Em 1980, Joaquim Alberto, natural do Huambo, tinha 23 anos e estudava para se formar. Não sabia concretamente o que gostaria de ser. Tinha dúvidas: "talvez engenheiro", pensou. Até hoje, 27 anos mais tarde e aos 40, nunca chegou sequer a folhear um "Manual de Mecânica" ou de "Introdução à electrónica". Uma mina amputou-lhe as pernas e os sonhos. Foi no Moxico. Corria o dia 22 de Abril de 1993. João Lousada"Jonas" Fios e cabos eléctricos, quadros com disjuntores e teias de aranha vêem-se na parede escurecida. É o pavilhão "Crónicos III", uma espécie de armazéns com mais de 50 metros de comprimento e vinte de largura. Tem cinco compartimentos, com beliches - alguns cobertos com mosqueteiros - ocupados por pacientes. Num deles, na dependência logo à entrada, um doente está deitado, de barriga para baixo, com os pés sobre duas almofadas. Veste fralda descartável, no lugar dos calções, enquanto o tronco, nu, parece ensaiar um ritual, à medida que o homem fala. Um tubo sai de um saco de plástico, preso na zona da bexiga. É a algália, por meio da qual João Lousada, o paciente, expulsa a urina. António Fernando Rente É uma luta diária ir e regressar do banho. Nota-se o esforço que faz para sair da cadeira de rodas e subir para o beliche ou o contrário. O exercício leva tempo e exige muita entrega. Já com o abdómen sobre o colchão, dá para lhe ver as nádegas, magras e cobertas de adesivos. A acção das escaras sobre o corpo de Rente é implacável. As escaras surgem por se permanecer longo tempo numa posição. O corpo faz pressão sobre uma mesma área, dificultando a circulação do sangue. A carne fica comprimida e a área pressionada perde sangue e oxigénio. Os tecidos morrem, o que origina o surgimento de feridas. O clima quente contribui particularmente para o seu surgimento. "Meu irmão, isso dói. Estou aqui a falar consigo, mas estou cheio de dores." António Fernando Rente é paraplégico. Em Dezembro de 1993, a viatura que conduzia accionou uma mina. O incidente, que ocorreu em Malanje, de onde é natural, matou os companheiros da tropa e o deixou nesta condição. Rente não se lembra bem do que aconteceu a seguir. "No princípio, nem as cores do hospital conseguia distinguir. Mais tarde, deixei de sentir as minhas pernas. Passei muito mal". Ele foi submetido a uma operação, em Novembro de 2002. "Mas nada mudou na minha situação." Joaquim Alberto Joaquim Alberto está sentado na cama, no compartimento a seguir ao de Jonas, no pavilhão Crónicos III. Os braços estão estendidos sobre o tronco e as mãos, com os dedos entrelaçados, envolvem o que restou das pernas. "Estou à espera da morte", responde, como alguém resignado com o seu inevitável destino. Mas é preciso acreditar, insiste o jornalista, ao que ele retorque: "Acha que, no meu estado, ainda tenho esperanças de alcançar alguma coisa? Tudo o que eu desejava foi por água abaixo. Estou todo empatado". Silêncio! Joaquim Alberto é bi-amputado (amputado das duas pernas) e está no Hospital Militar Principal há 14 anos. Há cinco anos ainda foi para a casa de um irmão, mas, por falta de acompanhamento e tratamento adequados, a sua situação agravou-se e teve que retornar ao hospital. João Lousada "Jonas" João Lousada, também tratado por "Jonas", está quase invariavelmente na mesma posição, desde que entrou para aquela unidade, há 11 anos. É tetraplégico (paralisia dos membros superiores, inferiores e dos dedos das mãos). Ele e companheiros das Forças Armadas caíram numa emboscada, no município do Úcua, na província do Bengo, em 1994. Jonas saltou do caminhão e foi dar a um chão falso. "Na verdade, era um buraco muito fundo, com muitos metros de comprimento", conta. O militar perdeu a consciência, recuperando-a sete ou oito horas mais tarde. "Não conseguia mover-me; nem sentia o meu próprio corpo". "Quebra da coluna cervical", revelaram os exames. António Fernando Rente Antigo motorista nas forças armadas, Rente tem 39 anos, 14 dos quais vividos no Hospital Militar Principal. Ele prefere esta situação, a ir a casa da irmã que tem em Luanda. "O nosso caso é complexo. Viver na família é difícil. É preciso ter estômago para nos aguentar. Nenhum dos nossos familiares tem condições para isso." Mas não é este o único transtorno para quem vai a casa de parentes. Ele relata casos de companheiros que deixaram o hospital, mas acabaram por retornar em pior situação, por falta de assistência médica. De acordo com Rente, pacientes que bebiam e se comportavam mal recebiam alta compulsiva. "Foi um grande erro do hospital. Muitos regressavam mal e os médicos já não podiam fazer nada. Éramos mais de cem. Já vi muitos morrer.em" Joaquim Alberto Joaquim Alberto não tem apenas a sonda (por onde sai a urina), como é o caso de Jonas. Ele sofreu uma colostomia, operação que lhe retirou parte do intestino grosso, para permitir a saída das fezes. Não pode defecar pelo ânus, porque a acção faz com que as escaras reabram. As fezes saem por si, sem que as sinta. Ele limita-se a limpar com uma compressa e deitar numa espátula, uma espécie de bacio. A posição que normalmente adopta na cama propiciou o surgimento das escaras, sobretudo nas nádegas. São feridas muito profundas, que foram fechadas com a pele retirada da operação. João Lousada "Jonas" Jonas ficou um mês na Unidade de Tratamento Intensivo, sem progressos. "Na altura, o hospital não tinha as condições de hoje", justificou. Teve, depois, de ser enviado para a África do Sul, onde foi operado. Dois anos mais tarde, retornou à unidade sanitária, onde convalesce até agora. Jonas não sente a saída quer da urina, quer das fezes. Só se dá conta quando as enfermeiras lhe trocam as fraldas descartáveis. "Eu dependo completamente das enfermeiras", lamenta. Elas, para além de o aliviaram da sujeira, lavam-no, sentam-no, deitam-no e o levantam. Ele chega a ser uma espécie de espectador de si mesmo. A impossibilidade de se movimentar deixa-o, quase sempre, dependente. Se calhar esquecido das suas limitações, à dada altura da conversa, Jonas tentou retirar um envelope debaixo do seu aparelho de som, que estava sobre uma estante. Em vão. Acabou por ser o jornalista a lho entregar. Fonte: Jornal de Angola |