Por alegada exiguidade do espaço, a imprensa que cobre o julgamento do «caso» Miala foi novamente convidada a abandonar a sala logo após a leitura da acta da sessão desta terça-feira.
Apenas a alguns familiares dos réus e cidadãos rigorosamente escolhidos foi permitido acompanhar o prosseguimento, hoje, da interpelação aos réus.
Fernando Miala foi hoje convidado a confirmar os dados constantes da acta compilados a partir das suas declarações e quando se preparava para o fazer a imprensa foi logo retirada da sala, não podendo por isso reportar o que eventualmente o réu terá retorquido.
Na última sessão o general Miala levantou o véu à desorganização que campeia nas Forças Armadas Angolanas e noutras instituições do Estado. Nas entrelinhas das suas declarações deixou a entender que foi vítima de uma cabala. O réu chegou mesmo a questionar os procedimentos que envolveram a sua exoneração, elementos que terão desagradado altas figuras do poder.
« Havia muitas contradições desde a madrugada do dia 24 altura em que tomei conhecimento da minha exoneração como director geral do SIE (...) Não me foi feito nenhum aviso prévio, nenhuma comunicação prévia. Tomei conhecimento que havia sido exonerado através de uma nota informativa em nome do senhor Presidente da República na madrugada do dia 24 de Fevereiro (...)Sublinho, dia 24 às zero horas através de uma nota informativa não é um decreto e não é um despacho presidencial. Ao mesmo tempo há um Diário da República que saiu em Março, está em posse do meu advogado, onde há um decreto presidencial em que sou exonerado como director geral do SIE datado de 27 de Fevereiro. A acusação e retomada pela pronúncia também fazem referência à minha exoneração no dia 27 de Fevereiro através de um despacho presidencial. Não sei qual desses actos prevalece. Não sei também se é a mesma instituição do Estado que assinou os três actos. A verdade é que os três actos foram feitos em nome de uma instituição do Estado que é o senhor Presidente da República.»
De acordo com a acta lida esta manhã, o antigo homem forte da secreta externa teria negado que se tivesse apropriado dos meios de escuta telefónica e de registo sonoro, sustentando que os havia deixado no seu gabinete e endossou a responsabilizou pelo seu desaparecimento às pessoas que havia assaltado e selado o seu gabinete de trabalho.»
Esclareceu que os aparelhos em causa estavam em regime experimental e por não terem funcionado o fornecedor havia prometido o envio de um técnico para verificar a sua fiabilidade técnica e eventualmente tomar outro procedimento.
Entretanto, o advogado de Miala, Eusébio Rangel, reafirmou a convicção de que o seu constituinte está inocente.
«Todos os actos praticados desde a fase preparatória até a esta fase de interrogatório e de produção de provas todas elas são extremamente importantes para nós os advogados, porque permitem inocentar as pessoas que foram acusadas. Nós acreditamos na inocência dos nossos constituintes. Até posição em contrário nós pensamos que gozam da presunção de inocência, logo nós acreditamos nessa inocência.»
O julgamento prosseguiu hoje com a audição dos restantes três réus, prevendo-se que a sentença seja ditada apenas na sexta-feira.